Na sala, sentados, o pai em sua poltrona e o filho no chão, cada um se divertia à sua maneira. O pai estava, como de costume, com seu caderninho preto de anotações sobre as pernas cruzadas, escrevendo. O filho, que alternava entre muitas posições, agora brincava alegremente com seu carrinho de bombeiros vermelho, imitando uma sirene para lá e para cá. Mais algumas voltas e torno de si mesmo e já chegava o caminhão para mais um resgate.
— Rápido, bombeiros, temos que salvar aquele gato. A árvore está em chamas, Ó meu Deus! Vamos logo, é hora do salvamento! – gritava o menino aproximando-se de um vaso – Salvamento ou salvação, pai?
Concentrado em seus escritos, o pai achou um tanto estranho o questionamento lingüístico do filho em meio a tal situação. Um pouco receoso de ter na família mais um escritor, o pai não admitiu a si mesmo que adorava a idéia de ver o filho seguir seus passos:
— Que importa filho, o gato precisa ser salvo, vá lá!
— O gato espera.
— E se ele morrer tostado?
— Não vai não. Ele não está pegando fogo de verdade.
Um pouco chocado com a facilidade com que seu filho mudava de universo, saindo da mais alegre brincadeira para a realidade mais empírica, o pai não admitiu a si mesmo o divertimento que era para ele pensar as palavras.
— Nesse caso... Salvamento, por quê?
— Um bom bombeiro deve saber falar com as pessoas, pai, para poder entendê-las e salvá-las direitinho. Eu vou ser um ótimo bombeiro, por isso, preciso desde já ir aprendendo. Vamos bombeiros! Que preguiça é essa? Acabou a pausa, um gato precisa ser salvo e essa árvore está em chamas, corram! – e voltou para o vaso, agora levantando a escada e desenrolando a mangueira que equipava seu carrinho.
Por um instante o pai ainda ficou contemplando seu filho, agora de volta à brincadeira. O poema que tentava já há uma semana terminar não lhe saía bom. Se acertava o final, o começo lhe parecia sem sentido. Se deixava o começo como estava, parecia que não havia final que se encaixasse a altura.
— Devagar agora meus amigos, esse é o momento mais importante! Desçam esse gato daí – continuava o filho – isso mesmo, agora! E... Ó não, uma ventania! Cuidado – o menino rolava com o caminhão na mão para o outro lado da sala. O que haveria acontecido com o gato? Pensava o pai, que agora não podia nem supor aonde ele pudesse estar.
— Bombeiros, o que houve com o gato? Ele está bem? – perguntou o menino – Não podemos nos preocupar com isso agora senhor, devemos deter o vento! – ele mesmo respondeu, mudando a entonação da voz – Concordo bombeiro! Pois vamos então, detenham esse vento!
O pai havia se esquecido completamente da temática que tentava abordar em seu poema e agora divagava sobre como os adultos desaprendiam, com o passar dos anos, a serem como as crianças. Por que ele não podia ser como seu filho? Não que ele quisesse, não queria. Não trocaria as noites de amor de nenhuma mulher por correrias no quintal e guerras de bexiga d’água. Contudo algo lhe incomodava. Algo na maneira como seu filho se relacionava com as coisas lhe trazia uma ponta de orgulho e uma ponta de ciúmes. Pensou que talvez tivesse a ver com nostalgia. Eram as lembranças dos bons momentos que o faziam ter saudades, quando acordava para trabalhar, preferiria ir para a escola, brincar tanto e voltar tão cansado, que nem pensasse na vida antes de dormir. Preferiria estar exausto, para nunca passar noites em claro, brigando com a insônia.
— Muito bom, senhores bombeiros. Estabilizem nosso caminhão que ainda precisamos achar o gato. Aonde ele pode ter ido? – se perguntava o filho, agora embaixo do tapete.
Só que as crianças também tinham seus conflitos, ele sabia. Lembrava de alguns vivamente, ao ponto de não conseguir afirmar se eram maiores ou menores que os que enfrentava agora.
— Pai, você viu o gato por aí?
Talvez lhe sobrasse reflexão, mas lhe faltasse sentimento. Não, sentimento não era a palavra, pois sentia muito. Era algo de sensibilidade, algo de prazer, algo da ordem da relação entre o mundo e o ser que ele não conseguia precisar.
— Pai, você viu o gato?
Faltava-lhe a conexão, essa falta de dúvida quanto às coisas. Essa clareza em resolver os problemas reais, os problemas que deveriam ser resolvidos. Que importava se havia gato ou não? Que importava se era possível que um caminhão rolasse metros e metros e saísse ileso; o problema naquele momento era se divertir. O mais adequado era o mais divertido. Mas ele sabia disso tudo. Ele nunca havia suposto o contrário. Por que então não conseguia entender, por que não conseguia terminar seu poema que tratava justamente dessa falta. Seria para isso que agora sentava para escrever perto do filho, observando-o brincar?
— Ok, muito bem bombeiros, o capitão não sabe do gato, teremos que achar nós mesmos! Mãos a obra! Mas senhor, como encontraremos o gato sem nosso capitão? Eu sei, é um momento difícil. Teremos que superar. Pergunte a ele mais uma vez senhor, por favor. Certo bombeiros, mais uma vez!
O menino olhou para o pai que continuava distante, desacreditou por um momento que aquele fosse o capitão da tropa de bombeiros vermelhos de seu carrinho. A verdade é que o era, então nada podia ser feito.
O que lhe faltava? O que lhe faltava?
— Capitão! – Gritou ele levantando-se e colocando-se em frente ao pai – precisamos de sua ajuda, não estamos conseguindo achar o gato, você tem alguma pista?
A intervenção foi forte demais para não ser notada. O filho, agora plantado em sua frente, olhava para cima em posição de continência esperando uma resposta.
— O gato?
— Sim capitão, o gato!
— Que bombeiros são esses que não conseguem achar um gato? Vocês são realmente bons bombeiros?
— Somos bons bombeiros senhor! Na verdade, somos os melhores da região.
— Pois então vocês devem saber... – Era isso, era isso que lhe faltava, pensou o pai, e continuou – Vocês devem saber que esse gato está muito bem escondido e só pode estar em um lugar!
— Qual lugar capitão?
— É um lugar muito perigoso, vocês estão dispostos a irem atrás dele comigo?
— Sim capitão!
— Pois então se preparem, pois ele está em qualquer lugar!
O menino assustou-se um pouco, talvez com o nível de abstração inesperado da brincadeira do pai, talvez com a noção estranha que ela implicava. Porém, devida a agitação com que o pai saiu em direção ao jardim, a brincadeira novamente o dominou e ele o seguiu aos pulos:
— Vamos bombeiros! Esse gato não escapa, ele será salvo quer queira quer não queira! - era isso que lhe faltava, lhe faltava a palavra.

