Poesia não tem função
— funciona!
“O amor deve nascer de correspondências, de excelências interiores. Espirituais, pensava. Os dois se sentem bem juntos. A vida se aproxima.Repartem-na, pois quatro ombros podem mais que dois.”
Se comporta rima,
Pouco importa...
— Desde que não me oprima.
Minha obra-arrima suporta
Só o que pretende abrir uma porta.
a Beatriz Behar.
De amoras e amores,
De demoras e cores
É fruta pequenininha
A poesia que se prova
E cada mordida se renova,
Tão sua quanto minha.
Compõe-se então a melodia
Inspira-se o poeta
Que na memória incompleta
Ainda lembra de um dia
Que ele mesmo não sabia
Ficou marcado de Bia.
...E o outro, que não sabia o que dizer, disse alguma coisa que ninguém entendeu. Nem mesmo ele.
E havia um terceiro ainda, que não o tendo entendido, por conseqüência, não sabia o que responder. Aí não respondeu.
Daí o primeiro, que havia proposto toda aquela história, se surpreendeu:
- Pera lá! O que está havendo?
Foi a vez do quarto e último homem se enfezar. Se quem deu a idéia não a entendeu, como é que nós devemos entender? Mas não falou nada. Só ficou olhando de canto aquele não dizer sem sentido enquanto o sol se punha.
Era óbvio para o mais imbecil dos mamíferos que a situação pedia que recapitulassem. Recapitular o quê? Pensavam os quatro, que sem perceber haviam se entendido, porém, por não perceberem que haviam se entendido, acham até hoje que não se entenderam. Desde lá uma pergunta importuna as cucas dos homens de boa vontade: “O que eu quero saber, afinal?”
Lá de longe, já noite, alguém que não estava no grupo arriscou um palpite. Só que veio de tão longe o palpite, que não se sabe de onde veio; dizia assim: “Ah, basta de querer saber da vida, eu quero mesmo é viver!”
O assunto voltou, dessa vez bastante enérgico. O outro disse que não fazia sentido. O primeiro concordou. O terceiro negou, fazia todo sentido. O primeiro também concordou. O quarto queria perguntar. Não perguntou. E o primeiro, depois de desconcordar e reconcordar, pediu a palavra:
- Eu tenho a solução!
Fez-se silêncio. Ele prosseguiu:
- Eu sei de onde veio a voz.
Os outros três se entreolharam espantadíssimos, como ele poderia saber de onde veio a voz? Ela veio de tão longe, pensavam eles. E com as sobrancelhas e um sorriso no canto do olho, pediam mudos que se esclarecesse a incógnita.
- Ela veio de tão longe.
A decepção invadiu o local num tom cômico temperado de meia raiva. O outro resignou-se. O terceiro desolou-se. O quarto, embora aborrido, inesperadamente, levantou-se e declarou-se caladamente quieto para sempre. Dois movimentos de mãos e um de boca deram conta do recado.
Então o primeiro começou a rir. Sem aviso, nem ressentimento, o outro entrou na risada, que, ao ganhar o quarto integrante, tornou-se uma descontraída gargalhada. O terceiro não resistiu e todos passaram a noite sorrindo, tinindo, tingindo.
Até que amanheceu...
Transcendentes não porque elas duraram no tempo e para mais muito, ao que parece, durarão. Esse julgamento não cabe aqui. Transcendentes pois nunca se sabe quanto tempo elas permanecerão expostas, como foi o caso dessas últimas, que duraram pra lá de mês. Sendo assim, não faz sentido dizer que são as citações do mês de setembro, um porque é dia trinta, outro porque elas podem perdurar muito mais que só o mês de setembro. Ah, mas poderia ser o mês em que elas foram citadas, não? Sim. Até poderia. Mas não. Ponto. Dito isso, às citações!
PS: Como já havia sido prometido, Mário de Andrade vai dominar o salão. Eu demoro, só que não esqueço.
1.
INSPIRAÇÃO
“São Paulo! comoção da minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original...
Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e Ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paria... Arys!
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!
São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América!”
Paulicéia desvairada, Mário de Andrade.
2.
Depois que discursou Macunaíma deu uma grande gargalhada imaginando na peça que pregava no passarinho. Maanape e Jiguê resolveram ir com ele, mesmo porque o herói carecia de proteção.
Macunaíma, Mário de Andrade
3.
O amor deve nascer de correspondências, de excelências interiores. Espirituais, pensava. Os dois se sentem bem juntos. A vida se aproxima.Repartem-na, pois quatro ombros podem mais que dois.
Amar, verbo intransitivo. Mário de Andrade.
4.
E era nessa mesma fala de paulistano sem se impostar nem se importar que ele era um intérprete admirável de poesia e prosa. Lembro de tê-lo visto e ouvido ler coisas suas em casa de Rodrigo. Sua construção oral tinha, então, modulações de frase musical. E não era que declamasse, Deus me livre! O que ele era é um dizedor fabuloso até de frase de conversa. Degustava a palavra e essa sua volúpia palatal é que deve ter inspirado seu congresso de Língua Nacional Cantada(...)
Beira-mar, Pedro Nava (falando sobre Mário de Andrade)
5.
É porque, B. amigo, “em arte, a beleza (isso é: o valor estético) é uma conseqüência”. O problema de cor não existe
Carta ao pintor moço, Mário de Andrade.
“Ter esse livro é um privilégio.” “E sim, É milhor que o Mário escreve, reclama com ele, se tiver coragem.”
Nota do B. (B é de blogueiro)
6.
— Assó, a gente faz o cerco. Não tem cão, maluco! Confia não? Tô aqui, mermão. Limpeza!
A voz da fome falando grosso. Quase gritando. Eu tenho medo. Colo o corpo à parede, sob a marquise. Puxo o papelão pra cobrir as costas. Falta papel. Merda, catei a caixa maior. Não dá pra nada. Vou morrer de frio.
Pivetim, Délcio Teobaldo.
Um espaço destinado aos novos escritores.
Esse livro foi vencedor do prêmio Barco a Vapor de literatura infanto-juvenil da editora SM (2008). Como querer ter um espaço no mundo dos escritores, se nós mesmos, jovens aspirantes, não damos espaço aos um pouco mais velhos e experientes? Então tá aí, espaço para a literatura contemporânea.
E sigamos nessa nesta citações de estréia. Agora à poesia!!
7.
Homem dentro do pesadelo
Patas de lobo arranham
Seu pescoço enquanto
Intenta em vão
Com socos e chutes amortecidos
Pelo ar pesado
Romper a membrana do sono
Vai rompê-la – de fora –
O dia
Com suas patas de lobo
Carlito Azevedo, Sublunar.
Esse já não é tão contemporâneo, esse livro é de 2001, mas vá lá. Para a literatura o tempo não passa como para as modas, de verão
"Não fossem os pequenos prazeres
que fazem todo sentido
Já tinha largado meu ofício
E pulado de um edifício"
"Vanilla Café, acompanhado de um Milk shake de negresco com licor e um croissant que já terminou...."
Escrito por Pedro Henrique Torrano Semeghini e Rafael, que vocês já conhecem...
Junho 16-06-2009
Faz par com a chuva,
Assim cedinho, a névoa.
E lá na terra, o lápis voa
Dando à luz à manhã ruiva.
Tudo aqui, faz tempo, já está
E penso no que me resta.
É o contraponto do desequilíbrio.
Enquanto encoberta a tempestade
Há de haver uma calmaria que dê
Ao homem molhado um novo brio.
Materializo-me em meio aquoso
E já não me percebo só.
Minhas intervenções não rimam
São lágrimas escorrendo das nuvens
Regando meus vai e vens.
E me seguro em minha mão.
Lembro de quem amo, que saudade,
Aí sim, são águas de felicidade.
“— Assó, a gente faz o cerco. Não tem caô, maluco! Confia não? Tô aqui, mermão. Limpeza!
A voz da fome falando grosso. Quase gritando. Eu tenho medo. Colo o corpo à parede, sob a marquise. Puxo o papelão pra cobrir as costas. Falta papel. Merda, catei a caixa maior. Não dá pra nada. Vou morrer de frio.”
“São Paulo! comoção da minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original...
Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e Ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paria... Arys!
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!
São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América!”
“Homem dentro do pesadelo
Patas de lobo arranham
Seu pescoço enquanto
Intenta em vão
Com socos e chutes amortecidos
Pelo ar pesado
Romper a membrana do sono
Vai rompê-la – de fora –
O dia
Com suas patas de lobo”
“Depois que discursou Macunaíma deu uma grande gargalhada imaginando na peça que pregava no passarinho. Maanape e Jiguê resolveram ir com ele, mesmo porque o herói carecia de proteção.”
“E era nessa mesma fala de paulistano sem se impostar nem se importar que ele era um intérprete admirável de poesia e prosa. Lembro de tê-lo visto e ouvido ler coisas suas em casa de Rodrigo. Sua construção oral tinha, então, modulações de frase musical. E não era que declamasse, Deus me livre! O que ele era é um dizedor fabuloso até de frase de conversa. Degustava a palavra e essa sua volúpia palatal é que deve ter inspirado seu congresso de Língua Nacional Cantada(...).”
“É porque, B. amigo, “em arte, a beleza (isso é: o valor estético) é uma conseqüência”. O problema de cor não existe em si. O que existe é o problema da solução do assunto duma nova síntese pictórica. É dentro desta nova síntese do assunto solucionado em pintura, que se impõem os problemas estéticos de cor, forma, volumes, ritmos, composição, etc. Em arte, o “artístico” é nós pormos o “estético” a serviço dum assunto, isto é, duma funcionalidade humana. (...) Ame os seus assuntos e procure dar deles a sua definição, a sua intuição definidora, a sua nova síntese, a sua transposição, seja para uma crítica da vida tal como é, seja para o ideal duma vida milhor."