“O amor deve nascer de correspondências, de excelências interiores. Espirituais, pensava. Os dois se sentem bem juntos. A vida se aproxima.Repartem-na, pois quatro ombros podem mais que dois.”

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A salvação

Na sala, sentados, o pai em sua poltrona e o filho no chão, cada um se divertia à sua maneira. O pai estava, como de costume, com seu caderninho preto de anotações sobre as pernas cruzadas, escrevendo. O filho, que alternava entre muitas posições, agora brincava alegremente com seu carrinho de bombeiros vermelho, imitando uma sirene para lá e para cá. Mais algumas voltas e torno de si mesmo e já chegava o caminhão para mais um resgate.

— Rápido, bombeiros, temos que salvar aquele gato. A árvore está em chamas, Ó meu Deus! Vamos logo, é hora do salvamento! – gritava o menino aproximando-se de um vaso – Salvamento ou salvação, pai?

Concentrado em seus escritos, o pai achou um tanto estranho o questionamento lingüístico do filho em meio a tal situação. Um pouco receoso de ter na família mais um escritor, o pai não admitiu a si mesmo que adorava a idéia de ver o filho seguir seus passos:

— Que importa filho, o gato precisa ser salvo, vá lá!

— O gato espera.

— E se ele morrer tostado?

— Não vai não. Ele não está pegando fogo de verdade.

Um pouco chocado com a facilidade com que seu filho mudava de universo, saindo da mais alegre brincadeira para a realidade mais empírica, o pai não admitiu a si mesmo o divertimento que era para ele pensar as palavras.

— Nesse caso... Salvamento, por quê?

— Um bom bombeiro deve saber falar com as pessoas, pai, para poder entendê-las e salvá-las direitinho. Eu vou ser um ótimo bombeiro, por isso, preciso desde já ir aprendendo. Vamos bombeiros! Que preguiça é essa? Acabou a pausa, um gato precisa ser salvo e essa árvore está em chamas, corram! – e voltou para o vaso, agora levantando a escada e desenrolando a mangueira que equipava seu carrinho.

Por um instante o pai ainda ficou contemplando seu filho, agora de volta à brincadeira. O poema que tentava já há uma semana terminar não lhe saía bom. Se acertava o final, o começo lhe parecia sem sentido. Se deixava o começo como estava, parecia que não havia final que se encaixasse a altura.

— Devagar agora meus amigos, esse é o momento mais importante! Desçam esse gato daí – continuava o filho – isso mesmo, agora! E... Ó não, uma ventania! Cuidado – o menino rolava com o caminhão na mão para o outro lado da sala. O que haveria acontecido com o gato? Pensava o pai, que agora não podia nem supor aonde ele pudesse estar.

— Bombeiros, o que houve com o gato? Ele está bem? – perguntou o menino – Não podemos nos preocupar com isso agora senhor, devemos deter o vento! – ele mesmo respondeu, mudando a entonação da voz – Concordo bombeiro! Pois vamos então, detenham esse vento!

O pai havia se esquecido completamente da temática que tentava abordar em seu poema e agora divagava sobre como os adultos desaprendiam, com o passar dos anos, a serem como as crianças. Por que ele não podia ser como seu filho? Não que ele quisesse, não queria. Não trocaria as noites de amor de nenhuma mulher por correrias no quintal e guerras de bexiga d’água. Contudo algo lhe incomodava. Algo na maneira como seu filho se relacionava com as coisas lhe trazia uma ponta de orgulho e uma ponta de ciúmes. Pensou que talvez tivesse a ver com nostalgia. Eram as lembranças dos bons momentos que o faziam ter saudades, quando acordava para trabalhar, preferiria ir para a escola, brincar tanto e voltar tão cansado, que nem pensasse na vida antes de dormir. Preferiria estar exausto, para nunca passar noites em claro, brigando com a insônia.

— Muito bom, senhores bombeiros. Estabilizem nosso caminhão que ainda precisamos achar o gato. Aonde ele pode ter ido? – se perguntava o filho, agora embaixo do tapete.

Só que as crianças também tinham seus conflitos, ele sabia. Lembrava de alguns vivamente, ao ponto de não conseguir afirmar se eram maiores ou menores que os que enfrentava agora.

— Pai, você viu o gato por aí?

Talvez lhe sobrasse reflexão, mas lhe faltasse sentimento. Não, sentimento não era a palavra, pois sentia muito. Era algo de sensibilidade, algo de prazer, algo da ordem da relação entre o mundo e o ser que ele não conseguia precisar.

— Pai, você viu o gato?

Faltava-lhe a conexão, essa falta de dúvida quanto às coisas. Essa clareza em resolver os problemas reais, os problemas que deveriam ser resolvidos. Que importava se havia gato ou não? Que importava se era possível que um caminhão rolasse metros e metros e saísse ileso; o problema naquele momento era se divertir. O mais adequado era o mais divertido. Mas ele sabia disso tudo. Ele nunca havia suposto o contrário. Por que então não conseguia entender, por que não conseguia terminar seu poema que tratava justamente dessa falta. Seria para isso que agora sentava para escrever perto do filho, observando-o brincar?

— Ok, muito bem bombeiros, o capitão não sabe do gato, teremos que achar nós mesmos! Mãos a obra! Mas senhor, como encontraremos o gato sem nosso capitão? Eu sei, é um momento difícil. Teremos que superar. Pergunte a ele mais uma vez senhor, por favor. Certo bombeiros, mais uma vez!

O menino olhou para o pai que continuava distante, desacreditou por um momento que aquele fosse o capitão da tropa de bombeiros vermelhos de seu carrinho. A verdade é que o era, então nada podia ser feito.

O que lhe faltava? O que lhe faltava?

— Capitão! – Gritou ele levantando-se e colocando-se em frente ao pai – precisamos de sua ajuda, não estamos conseguindo achar o gato, você tem alguma pista?

A intervenção foi forte demais para não ser notada. O filho, agora plantado em sua frente, olhava para cima em posição de continência esperando uma resposta.

— O gato?

— Sim capitão, o gato!

— Que bombeiros são esses que não conseguem achar um gato? Vocês são realmente bons bombeiros?

— Somos bons bombeiros senhor! Na verdade, somos os melhores da região.

— Pois então vocês devem saber... – Era isso, era isso que lhe faltava, pensou o pai, e continuou – Vocês devem saber que esse gato está muito bem escondido e só pode estar em um lugar!

— Qual lugar capitão?

— É um lugar muito perigoso, vocês estão dispostos a irem atrás dele comigo?

— Sim capitão!

— Pois então se preparem, pois ele está em qualquer lugar!

O menino assustou-se um pouco, talvez com o nível de abstração inesperado da brincadeira do pai, talvez com a noção estranha que ela implicava. Porém, devida a agitação com que o pai saiu em direção ao jardim, a brincadeira novamente o dominou e ele o seguiu aos pulos:

— Vamos bombeiros! Esse gato não escapa, ele será salvo quer queira quer não queira! - era isso que lhe faltava, lhe faltava a palavra.

domingo, 8 de novembro de 2009

III

Poesia não tem função

— funciona!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

II

Admiro todo sujeito livre

pra se ligar apaixonado

mesmo a um simples predicado

domingo, 1 de novembro de 2009

I

prazeres

Intrinsecamente divididos,

os erros

sejam acertos

incompreendidos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Minha Obra-Prima

Se comporta rima,

Pouco importa...

— Desde que não me oprima.

Minha obra-arrima suporta

Só o que pretende abrir uma porta.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

As amoreiras

a Beatriz Behar.

De amoras e amores,

De demoras e cores

É fruta pequenininha

A poesia que se prova

E cada mordida se renova,

Tão sua quanto minha.

Compõe-se então a melodia

Inspira-se o poeta

Que na memória incompleta

Ainda lembra de um dia

Que ele mesmo não sabia

Ficou marcado de Bia.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

poema ilustrado I (além de uma breve e importante explicação)





Essa é o primeiro de vários poemas ilustrados encontrados dentro de um antigo baú de uma residência abandonada. A autoria desses poemas é creditada, por motivos investigativos, a um menino chamado Clamor. Acredita-se que os desenhos também sejam dele, pois nas referências encontradas a outras pessoas, nenhuma aponta qualquer tipo de parceria. São todos pertencentes a uma série escrita antes de sua partida para além do conhecido. Outros textos em prosa mais explicativos foram encontrados e serão publicados, como era seu desejo, um pouco mais a frente.
Tentarei, dentro do possível, reconstituir a vida e obra desse menino, embora contra sua vontade. Por enquanto é só...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Decifra-me ou nem conto

...E o outro, que não sabia o que dizer, disse alguma coisa que ninguém entendeu. Nem mesmo ele.

E havia um terceiro ainda, que não o tendo entendido, por conseqüência, não sabia o que responder. Aí não respondeu.

Daí o primeiro, que havia proposto toda aquela história, se surpreendeu:
- Pera lá! O que está havendo?

Foi a vez do quarto e último homem se enfezar. Se quem deu a idéia não a entendeu, como é que nós devemos entender? Mas não falou nada. Só ficou olhando de canto aquele não dizer sem sentido enquanto o sol se punha.

Era óbvio para o mais imbecil dos mamíferos que a situação pedia que recapitulassem. Recapitular o quê? Pensavam os quatro, que sem perceber haviam se entendido, porém, por não perceberem que haviam se entendido, acham até hoje que não se entenderam. Desde lá uma pergunta importuna as cucas dos homens de boa vontade: “O que eu quero saber, afinal?”

Lá de longe, já noite, alguém que não estava no grupo arriscou um palpite. Só que veio de tão longe o palpite, que não se sabe de onde veio; dizia assim: “Ah, basta de querer saber da vida, eu quero mesmo é viver!”

O assunto voltou, dessa vez bastante enérgico. O outro disse que não fazia sentido. O primeiro concordou. O terceiro negou, fazia todo sentido. O primeiro também concordou. O quarto queria perguntar. Não perguntou. E o primeiro, depois de desconcordar e reconcordar, pediu a palavra:

- Eu tenho a solução!

Fez-se silêncio. Ele prosseguiu:

- Eu sei de onde veio a voz.

Os outros três se entreolharam espantadíssimos, como ele poderia saber de onde veio a voz? Ela veio de tão longe, pensavam eles. E com as sobrancelhas e um sorriso no canto do olho, pediam mudos que se esclarecesse a incógnita.

- Ela veio de tão longe.

A decepção invadiu o local num tom cômico temperado de meia raiva. O outro resignou-se. O terceiro desolou-se. O quarto, embora aborrido, inesperadamente, levantou-se e declarou-se caladamente quieto para sempre. Dois movimentos de mãos e um de boca deram conta do recado.

Então o primeiro começou a rir. Sem aviso, nem ressentimento, o outro entrou na risada, que, ao ganhar o quarto integrante, tornou-se uma descontraída gargalhada. O terceiro não resistiu e todos passaram a noite sorrindo, tinindo, tingindo.

Até que amanheceu...

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

As citações transcendentes

Transcendentes não porque elas duraram no tempo e para mais muito, ao que parece, durarão. Esse julgamento não cabe aqui. Transcendentes pois nunca se sabe quanto tempo elas permanecerão expostas, como foi o caso dessas últimas, que duraram pra lá de mês. Sendo assim, não faz sentido dizer que são as citações do mês de setembro, um porque é dia trinta, outro porque elas podem perdurar muito mais que só o mês de setembro. Ah, mas poderia ser o mês em que elas foram citadas, não? Sim. Até poderia. Mas não. Ponto. Dito isso, às citações!

PS: Como já havia sido prometido, Mário de Andrade vai dominar o salão. Eu demoro, só que não esqueço.

1.

INSPIRAÇÃO

“São Paulo! comoção da minha vida...

Os meus amores são flores feitas de original...

Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e Ouro...

Luz e bruma... Forno e inverno morno...

Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...

Perfumes de Paria... Arys!

Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!

São Paulo! comoção de minha vida...

Galicismo a berrar nos desertos da América!”

Paulicéia desvairada, Mário de Andrade.

2.

Depois que discursou Macunaíma deu uma grande gargalhada imaginando na peça que pregava no passarinho. Maanape e Jiguê resolveram ir com ele, mesmo porque o herói carecia de proteção.

Macunaíma, Mário de Andrade

3.

O amor deve nascer de correspondências, de excelências interiores. Espirituais, pensava. Os dois se sentem bem juntos. A vida se aproxima.Repartem-na, pois quatro ombros podem mais que dois.

Amar, verbo intransitivo. Mário de Andrade.

4.

E era nessa mesma fala de paulistano sem se impostar nem se importar que ele era um intérprete admirável de poesia e prosa. Lembro de tê-lo visto e ouvido ler coisas suas em casa de Rodrigo. Sua construção oral tinha, então, modulações de frase musical. E não era que declamasse, Deus me livre! O que ele era é um dizedor fabuloso até de frase de conversa. Degustava a palavra e essa sua volúpia palatal é que deve ter inspirado seu congresso de Língua Nacional Cantada(...)

Beira-mar, Pedro Nava (falando sobre Mário de Andrade)

5.

É porque, B. amigo, “em arte, a beleza (isso é: o valor estético) é uma conseqüência”. O problema de cor não existe em si. O que existe é o problema da solução do assunto nem nova síntese pictórica. É dentro desta nova síntese do assunto solucionado em pintura, que se impõem os problemas estéticos de cor, forma, volumes, ritmos, composição, etc. Em arte, o “artístico” é nós pormos o “estético” a serviço dum assunto, isto é, duma funcionalidade humana. (...) Ame os seus assuntos e procure dar deles a sua definição, a sua intuição definidora, a sua nova síntese, a sua transposição, seja para uma crítica da vida tal como é, seja para o ideal duma vida milhor.

Carta ao pintor moço, Mário de Andrade.

“Ter esse livro é um privilégio.” “E sim, É milhor que o Mário escreve, reclama com ele, se tiver coragem.”

Nota do B. (B é de blogueiro)

6.

— Assó, a gente faz o cerco. Não tem cão, maluco! Confia não? Tô aqui, mermão. Limpeza!

A voz da fome falando grosso. Quase gritando. Eu tenho medo. Colo o corpo à parede, sob a marquise. Puxo o papelão pra cobrir as costas. Falta papel. Merda, catei a caixa maior. Não dá pra nada. Vou morrer de frio.

Pivetim, Délcio Teobaldo.

Um espaço destinado aos novos escritores.

Esse livro foi vencedor do prêmio Barco a Vapor de literatura infanto-juvenil da editora SM (2008). Como querer ter um espaço no mundo dos escritores, se nós mesmos, jovens aspirantes, não damos espaço aos um pouco mais velhos e experientes? Então tá aí, espaço para a literatura contemporânea.

E sigamos nessa nesta citações de estréia. Agora à poesia!!

7.

Homem dentro do pesadelo

Patas de lobo arranham

Seu pescoço enquanto

Intenta em vão

Com socos e chutes amortecidos

Pelo ar pesado

Romper a membrana do sono

Vai rompê-la – de fora –

O dia

Com suas patas de lobo

Carlito Azevedo, Sublunar.

Esse já não é tão contemporâneo, esse livro é de 2001, mas vá lá. Para a literatura o tempo não passa como para as modas, de verão em verão. Embora haja também suas vaidades em nosso meio.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O salto

"Não fossem os pequenos prazeres

que fazem todo sentido

Já tinha largado meu ofício

E pulado de um edifício"



"Vanilla Café, acompanhado de um Milk shake de negresco com licor e um croissant que já terminou...."


Escrito por Pedro Henrique Torrano Semeghini e Rafael, que vocês já conhecem...

Junho 16-06-2009