“Fita verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez. Gritou: — Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!... Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.”

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

As citações de fim de ano

Continuando com a política das citações que só respeitam sua própria vontade de serem citadas. Ou, quem sabe, minha vontade de citá-las, não sei muito bem. Fico um pouco confuso quando dentro desse terreno. Enfim... Aí vão elas!


1.(...) O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só-pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas. (...)

Mário de Andrade, Peru de Natal - Contos novos
Acho que eu fiquei devendo um continho (ou contaço!) do Mário, já que as citações passadas eram dele e nenhum conto apareceu. Está aí então, dívida paga.

2. Erro de português

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

Oswald de Andrade, Erro de português, Pau-Brasil.

3. Aviso

Se me quiseres amar,
terá de ser agora: depois
estarei cansada.
Minha vida foi feita de parceria com a morte:
pertenço um pouco a cada uma,
pra mim sobrou quase nada.

Ponho a máscara do dia
um rosto cômodo e simples,
e assim garanto minha sobrevida

Se me quiseres amar,
terá de ser hoje:
amanhã estarei mudada.

Lya Luft, Aviso, Para não dizer adeus.
Continuando com aquele papo de autores novos, ou livros recentemente lançados, porque a Lya já alcançou a casa da sétima dezena!
4. (...) Maria alinhavou carta de oito ou nove folhas. Impaciente, ele não chegou até o fim e rasgou-a em pedacinhos, oferenda aos pés do elefante. Sua resposta foi palavrão medonho cobrindo a página.
Se preciso, escrava um bilhete - o mínimo de palavras. (...)

Dalton Trevisan, Guerra conjugal, Batalha de bilhetes.

5. O sol anunciava um dia diferente; era claro, tão claro, e desvendava todas as coisas do quarto, alegres e matinais. Era um sol de férias e Floriano sentia a necessidade de ter pressa. (...)

Otto Lara Resende, A boca do inferno, O porão.

6. Para diminuir a mortalidade e aumentar a produção, proibi a aguardente.
Concluiu-se a construção da casa nova. Julgo que não preciso descrevê-la. As partes principais apareceram ou aparecerão; o resto é dispensável e apenas pode interessar aos arquitetos, homens que provavelmente não lerão isto.

Graciliano Ramos, São Bernardo.
(adoro essa, Nota do B.)

7. Namorados

O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
-Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
-Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listrada?
A moça se lembrava:
-A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
-Antônia, você parece uma lagarta listrada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
-Antônia, você é engraçada! Você parece louca.

Manoel Bandeira, Libertinagem, Namorados

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