(O texto que segue foi escrito faz tempo, numa outra tentativa de retomada que como se pode supor, não deu certo. Vou então utilizá-lo, mostrando que ele não está de tudo desatualizado, mas já prevenindo qualquer descompasso)
Concentração, foco e uma boa palestra de motivação é o que não temos ainda. O resto temos. E a vida fez questão de mostrar o que me faz bem. Sem mais delongas, a situação é a seguinte; tempo eu tenho! Para quem se lembra da minha “consideração breve sobre não estar conseguindo escrever” aí foi uma notícia boa, de novo: tempo eu tenho! Não quero entrar em questões pessoais, nem contar que larguei meu emprego de garçom; não é esse o espaço, não porque ele não possa ser, mas porque não é isso que as pessoas que lêem este blog esperam de mim. Que sei eu das pessoas que lêem este blog? Pouco, só que não imagino como eu tenha sugerido em texto algum que algum dia eu fosse sair falando da minha rotina besta e desinteressante. Pois é por aí que vai, mas não só. O que me incomoda é: estou fora de forma. Incrível imaginar que há sim um preparo físico – bem mais mental que físico (e os dois não são a mesma coisa?) – mesmo para escrever. O preparo mais ofegante andando solto pelo mundão é para ler. Também porque todos, em algum momento, somos convidados a ter que ler, escrever nem tanto. E eu ouço, é muito grande esse livro, preciso de mil anos para ler aquilo. O cinema é legal, quase todo filme tem em torno de um pouco menos de duas horas, assim todo mundo está mais que acostumado a ficar assistindo por esse tempo. Preparo! É cabível imaginar que tudo necessite um certo aquecimento, que treino é sim essencial para um gênio se fazer. Estou tentando abandonar a metáfora esportiva aqui, mas está difícil. E utilizo “gênio” com o sentido mais romântico da palavra, quem não se lembra de Castro Alves: “eu sinto em mim o borbulhar do gênio”? Pois é por aí que vai, mas não só. Eu só queria, na verdade, afastar a pretensão de ser genial, só isso. Contudo, acredito sim que o exercício aprimore a técnica – e isso é inegável – e a técnica é primordial para o genial, mas não só. O que mais então? Não faço idéia, porém, alguma coisa tem! “no creo en brujas, pero que las hay, hay”. Pois é por aí que vai, mas não só. E enquanto meu Microsoft Word continuar colocando trema e tudo o mais nas palavras, eu vou continuar usando a ortografia antiga, não se incomodem. Escrever diretamente no blog é deveras perigoso, perde-se tudo à menor falha, que pode vir de qualquer lugar. Só não escrevo na máquina de escrever porque não tenho uma. E seria estúpido ter que bater no computador depois de bater à máquina para digitalizar o texto. O que está acontecendo aqui é raro superficialmente, a essência é mais que conhecida. Que desenhista não desenha qualquer coisa quando está buscando inspiração? Que músico não toca acordes variados, ou mesmo aquela canção que ele já tocou mil vezes antes de compor? Pois é por aí que vai, mas não só. Faltam as citações: já vão!
1.
— Papai, inventei uma poesia.
— Como é o nome?
— Eu e o sol. – sem esperar muito recitou: - “As galinhas que estão no quintal já comeram duas minhocas mas eu não vi”.
Clarice Lispector
Perto do coração selvagem
2.
“(...) Mas sei bem que toda interpretação empobrece o mito e o sufoca: não devemos ser apressados com os mitos; é melhor deixar que eles se depositem na memória, examinar pacientemente cada detalhe, meditar sobre seu significado sem nunca sair de sua linguagem imagística. A lição que se pode tirar de um mito reside na literalidade da narrativa, não nos acréscimos que lhe impomos do exterior.”
Ítalo Calvino
Lezioni americane – sei proposte per il prossimo lillennio, 1988.
Seis propostas para o próximo milênio,
Tradução: Ivo Barroso
3.
“Fita verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez. Gritou: — Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!...
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.”
Guimarães Rosa
Fita verde no Cabelo, nova velha estória.
(recomendo a edição da nova fronteira ilustrada por Roger Mello)
4.
“— Assim é, mana egüinha... Não temos mais Kuzmá Ionitch... Foi-se desta para melhor... Pegou e morreu, à toa... Agora, imagina tu, por exemplo: tu tens um potrinho, e tu és a mãe desse potrinho... E de repente, imagina, esse mesmo potrinho se despacha desta para melhor... Dá pena ou não dá?
A egüazinha mastiga, escuta e esquenta com seu bafo as mãos do dono...
Iona se deixa arrebatar e conta-lhe tudo...”
Anton Tchékhov
Angústia
Tradução: Tatiana Belinky
5.
É Ela! É Ela! É Ela! É Ela!
É ela! é ela! murmurei tremendo,
E o eco ao longe murmurou - é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura -
A minha lavadeira na janela!
Dessas águas-furtadas onde eu moro
Eu a vejo estendendo no telhado
Os vestidos de chita, as saias brancas;
Eu a vejo e suspiro enamorado!
Esta noite eu ousei mais atrevido
Nas telhas que estalavam nos meus passos
Ir espiar seu venturoso sono,
Vê-la mais bela de Morfeu nos braços!
Como dormia! que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!
Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
Um bilhete que estava ali metido...
Oh! de certo... (pensei) é doce página
Onde a alma derramou gentis amores;
São versos dela... que amanhã de certo
Ela me enviará cheios de flores...
Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
Eu beijei-a a tremer de devaneio.
É ela! é ela! - repeti tremendo;
Mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!
Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas
Se achou-a assim mais bela, - eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camisinhas!
É ela! é ela! meu amor, minh’alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela...
É ela! é ela! - murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou - é ela!
Álvares de Azevedo
Lira dos vinte Anos
6.
“(...) qualquer um, independente das habilitações que tenha, ao menos uma vez na vida, fez ou disse coisas muito acima da sua natureza e condição, e se a essas pessoas pudéssemos retirar do cotidiano pardo em que vão perdendo os contornos, ou elas, a si próprias por violência se retirassem de malhas ou prisões, quantas mais maravilhas seriam capazes de obrar, que pedaços de conhecimento profundo poderiam comunicar, porque cada um de nós sabe infinitamente mais do que julga e cada um dos outros infinitamente mais do que neles aceitamos reconhecer”
José Saramago
A Jangada de Pedra
7. "Mas se nos sobrar bastante discernimento e se não devorarmos simplesmente as obras completas – esses milhões de palavras – poderemos ainda ter esperança de progresso. Entretanto, não devemos ficar atolados no pântano de nossas teorias. Não devemos nos deixar iludir pelos pensadores vagos, dúbios, compartimentados, que num momento nos dizem que o próprio mestre encarava suas idéias como meras teorias e, que no momento seguinte reagem com indignação quando temos idéias próprias (...)."
TEORIA E TÉCNICA DE INTEGRAÇÃO DA PERSONALIDADE,
Frederick S. Perls
Isto é gestalt, coletânea de artigos




Lembro sempre de uma cena de um filme sobre/baseado em Shakespeare, em que lhe perguntam "Will, e a peça? Está pronta?", e ele: "Pronta, linha por linha"; "E cadê?", ao que ele responde, apontando para sua cabeça "Aqui dentro. Trancada."
ResponderExcluirPois é por aí que eu vou... com o adendo de que eu não sou Shakespeare.