Desde que a palavra cortou o silêncio e tudo emergiu cobrindo o vazio, há um ponto preto. É uma pequena estrela quieta no céu, a única que não se preocupa em brilhar. No começo, curiosos, perguntavam-na: por quê? Ela encolhia-se sem saber, já não lembrava, ou não podia explicar. O incômodo era que ali dentro do encolhido, alguma lacuna não se deixava apertar; era um buraquinho bem pequeno, do tamanho de uma certeza. Não importa o que fizesse, não ia embora; devia ter nascido com ela, às vezes pensava. Sentia-se fria, observando novas e velhas estrelas ofuscando-se umas as outras. Aquela luz, esclarecendo tudo, perseguindo toda penumbra, destruindo, sem piedade, qualquer escuridão, deixava nela uma dúvida: Logo ela, nascida pra clarear, afeiçoara-se pelo escuro? Até que pegou uma moda de dividir. Aqui é meu espaço, ali o seu, cada um que brilhe onde pode, logo não haverá espaço para todos nós, quem chegou antes tem de ter alguma vantagem, era o que se ouvia por aí. Como a palavra não bastasse, medidas mais drásticas tiveram de ser tomadas. Subiram paredes e muros, sempre com grandes janelas, para vigiar o vizinho; Quem garante o que ele está tramando? Era a melhor desculpa. A pequena estrela relutava em construir sua casa, não achava que fizesse sentido, para quê paredes? Até que um dia, cansados do descaso e da passividade da pequena, seus vizinhos foram tomando seu espaço, construindo muros cada vez mais altos e espremendo a estrelinha em seu lugar. Sobrara para ela um longo caminho estreito, feito dos muros das outras estrelas que ela já não podia ver onde dava. Como todo céu já estivesse quase tomado, não havia mais necessidades de janelas, apenas pequenas frestas; fizeram-se alianças, uniram-se os fortes, excluíram-se os fracos, cada um em seu lugar, ofuscando-se um ao outro. Agora não enxergava nada a estrelinha; uma dor a fez murchar, como nunca ocorrera. Encolhia-se de vez em quando, mas nunca de tristeza; foi a primeira vez que sentiu saudade, saudade de quê? Não saiba. Resolveu então caminhar e ver aonde os muros a levariam. Cabisbaixa, passava a procurar não sabia o quê. Um que a visse passando, logo fechava a porta, não a conheço, vá se arranjar em outro lugar! Um passinho depois do outro, o caminho ia se estreitando, e se estreitava mais conforme seu medo aumentava. Estava sozinha, acompanhada da luz que saia por baixo das portas. Mas o universo era enorme, não poderiam tê-lo tomado inteiro, poderiam? Às vezes pensava. Resolveu seguir até não agüentar. E foi. Foi. Foi. Foi. Vendo que nada mudara, fechou os olhos e continuou. Continuou, continuou... Até que sentindo um diferente, abriu os olhos; a luz por baixo das portas não se via mais, só ao longe, uma fenda do tamanho de um ponto, deixando escapar uma réstia da direção de que ela viera, bem no meio de dois muros. Resolveu que ali construiria sua casinha, deixou um caminho para poder sair, bem parecido com o que havia percorrido este tempo incerto todo. E começou então, redonda e escura, igualzinha àquele buraquinho, com a mesma força irreprimível dele, levantou uma grande paredecurva, em forma de zero. Ao terminar, ouviu sons vindos de fora, foi checar. Já se viam novas luzes e muros surgirem por toda a volta, cercando sua construção. Voltou para se refugiar, temerosa. E logo da entrada viu sua parede ali, protegendo o que deveria ser protegido, todo o potencial da casa estava ali dentro. Sentou bem no meio do seu casulo e deixou o tempo passar, o vazio se acalmar, negro como ele é. Não sentiu mais saudade. E o que se viu então, não se via há muito tempo: dentro daquele buraquinho brotou uma luz, brilhando do tamanho de uma certeza.
“Fita verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez. Gritou: — Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!... Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.”
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
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Maravilhoso, entendi na alma. bjs JVT
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