“Fita verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez. Gritou: — Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!... Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.”
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
O útero - nova versão.
O que lhes contarei começa num barulho de mar batendo contra o costado de uma antiga caravela, repleta de tradições. Não se enxerga muito, à noite água é escura. Pegaremos carona sobre o sal que se desprende da marulhada ao chocar-se com o carvalho para chegarmos às narinas tranqüilas que, sentadas no chão, respiram o convés. Nosso capitão, recostado em mastro principal, conta-nos que boa história só se pode contar quando todos estiverem prontos para ouvi-la; os marinheiros já conhecem as idéias do capitão e confiam nelas e nele, concentrando-se em sua voz. Ele espera o momento ideal, quando o sono chega entorpecendor, livrando a passagem para as palavras penetrem literais nos ouvidos distantes. Convida-os a deitar e olhar o céu estrelado. Logo todos estão olhando, contemplando a imensidão negra que os circunda. O capitão lembra-os que nem sempre estiveram vivos e que tampouco viverão para sempre, então faz uma pausa...
...Desde que a palavra cortou o silêncio e tudo emergiu cobrindo o vazio, há um ponto preto no céu. É uma pequena estrela quieta, a única que não se preocupa em brilhar. Curiosas , todas perguntavam-na: por quê? Ela encolhia-se não sabendo, já não lembrava, ou não podia explicar. O incômodo era que ali, dentro do encolhido, alguma lacuna não se deixava apertar; era um buraquinho bem pequeno, do tamanho de uma dúvida. Não importava o que fizesse, não ia embora; devia ter nascido com ela, às vezes pensava. Sentia-se fria, observando novas e velhas estrelas ofuscando-se umas as outras. Aquele “claro” que luzia tudo, perseguindo toda penumbra, destruindo, sem piedade, qualquer escuridão, plantava nela um receio: nascera estrela e afeiçoara-se pelo escuro?
Até que pegou uma moda de dividir. Aqui é meu espaço, ali o seu, cada um que brilhe onde pode, logo não haverá espaço, quem já está se faça vantajoso, era o que se ouvia. Como a palavra não bastasse, medidas mais drásticas tiveram de ser tomadas. Subiram muros altos, sempre com grandes janelas, para vigiar o do lado; desculpas foram dadas, veja bem, não é que eu desconfie do senhor, mas são tempos difíceis, sabe como é? Pode me espionar também, se isso lhe tranqüiliza, mas não posso abrir mão do que me é caro, concorda? Foi neste contexto que pela primeira vez se criou a idéia de justificar as atitudes tomadas; não demorou nada para que as justificativas recaíssem sobre os vizinhos, quem garante a segurança, o que ele pode estar tramando, ninguém é confiável até que se prove o contrário! A pequena estrela relutava em construir seus muros, não achava que fizesse sentido, para quê trancar-se, dividir-se? Era-lhe complicado aceitar as idéias que se espalhavam, explicando e fundamentando o outro, sempre o outro.
Até que um dia, cansados do descaso e da passividade da pequena, seus vizinhos foram tomando seu espaço, construindo cada vez mais alto e largo, e espremendo a estrelinha em seu lugar. Sobrara para ela um longo caminho estreito, feito dos muros das outras estrelas; não se podia ver onde dava. Como todo céu já estivesse tomado, não havia mais necessidades de janelas, apenas pequenas frestas; fizeram-se alianças, uniram-se os fortes, excluíram-se os fracos, cada um em seu lugar, ofuscando-se um ao outro. Agora a estrelinha enxergava nada; uma dor a fez murchar, como nunca ocorrera. Encolhia-se de vez em quando, mas nunca de tristeza; foi a primeira vez que sentiu saudade, saudade de quê? Não sabia. Resolveu então caminhar e ver aonde os muros a levariam. Cabisbaixa, passava a procurar. Um que a visse logo dizia, não a conheço, vá se arranjar em outro lugar! Um passinho depois do outro, o caminho ia se estreitando, e se estreitava conforme seu medo aumentava. Estaria sozinha, mas a acompanhava a luz que saia pelas frestas dos muros. O universo era enorme, não poderiam tê-lo tomado inteiro, poderiam? Às vezes pensava. Resolveu seguir até não agüentar. E foi. Foi. Foi. Foi. Vendo que nada mudara, fechou os olhos e continuou, tateando o caminho. Continuou, continuou... Até que, sentindo um diferente, abriu os olhos; a luz das frestas não estava mais com ela, salvo ao longe, uma fenda do tamanho de um ponto, deixando escapar uma réstia da direção de que ela viera. Resolveu que ali construiria uma coisa nova, sem muros, com paredes, para que não fosse espremida de novo, e com uma engrenagem que abrisse e fechasse, para quem quisesse entrar, entrar. Depois da engrenagem, que descobriu-se muito depois ter sido chamada porta, a pequena deixou um caminho para poder sair, bem parecido com o que havia percorrido este tempo incerto todo. E começou então, redonda e escura, igualzinha àquele buraquinho, com a mesma força irreprimível dele, levantou uma grande parede curva, em forma de zero. Ao terminar, ouviu sons vindos de fora, foi checar. Eram as estrelas que comentavam o que estaria acontecendo, o que é aquilo, quem permitiu? Não será perigoso? Era tamanho o estranhamento que elas até destruíram seus muros para saírem e analisarem melhor. A estrelinha tentou explicar-lhes, mas não entendendo, voltaram à segurança de seus muros e aproveitaram o ocorrido para reforçar e aumentar a segurança. Entrou então em sua construção temerosa e apreensiva. Teria feito tudo errado? Mas, logo da entrada viu sua parede ali imponente, protegendo o que deveria ser protegido. Sentiu que um potencial reinava dentro e chamou-lhe “casa”. Sentou bem no meio dela e, querendo dar um toque pessoal, achou que "casulo" soava melhor. Deixou o tempo passar, o vazio se acalmar, negro como ele é. Não sentiu mais saudade. E o que se viu então, não se via: dentro daquele buraquinho brotou uma luz, brilhando do tamanho de uma certeza.
A luz viajou rápida e certeira, chegando à caravela. Só quem flagrou-a foi o capitão, que já a esperava desde o começo da história. Fechou os olhos e deixou a luz aquecê-lo. Os marujos, de rostos dormidos estavam tranqüilos, estirados no convés, sem saber como acordavam revigorados. Eram todos cúmplices. O capitão lembrou do porquê a esperava todos os dias e deixou o vazio chegar.
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Me senti em casa, aconchegada na luz quente que esse ambiente tem. Quente como o toque de uma mãe enquanto põe a criançã para dormir.
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