“Fita verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez. Gritou: — Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!... Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.”

sexta-feira, 29 de abril de 2011

No ponto.

Estou aqui sentadinho no ponto de ônibus, com o pé encharcado.
Faz um baita frio; me encolho e coloco os braços para dentro da camiseta.
Esqueci o casaco.
Até inspiro alguma compaixão, imagino. Ainda mais que chove como nunca.
Ajudei uma moça a fechar o guarda chuva, ela me contou quanto ele custou e como não serve para nada; quebra toda hora! Estava funcionando.
Um carro passou e me molhou; voltei a me encolher.
Está vindo um ônibus, pena não ser o meu.
Ao menos posso ficar sozinho.

Os carros passam irritados e de nada adianta minha pose mimosa, não há espaço para sensibilidade, e transito entorpece todo amor. Contém toda emoção, até virar desespero, desespero não dá para conter.
Pelas próximas horas focarei entediado, tentando me locomover em direção a minha obrigação.
Tenho preguiça de dias assim. Era para ser fim de semana. Quem disse? Deus.
Ora, só um cego, focado em suas tarefas não percebe; hoje não é dia de trabalho – assim pensam os preguiçosos, dizem os atarefados.

Um pernilongo veio me fazer companhia, está voando na altura dos meus olhos.
Ele se abriga da chuva, não tem intenção de me picar, por enquanto.
Um pingo pode ser fatal para ele, imagino; deve ser como uma cachoeira sobre nós.

Quem sabe a chuva não passa...
Quem sabe meu ônibus não passa...
Pouco me importa agora, só me resta esperar.
Quem sabe o frio não passa...
Quem sabe a vida não passa...   

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